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• A cada 9 segundos, MG registra uma internação por consequências do diabetes

“É uma doença silenciosa, eu não sentia nada”, relata o aposentado Antônio Domingos dos Santos Filho, de 61 anos. Diabético, ele integra a parcela da população que convive diariamente com uma enfermidade que, em muitos casos, causa danos sem grandes alardes. Antônio não percebeu, por exemplo, que o aumento da sede era um sintoma da doença.

“Minha mãe sempre alertava para procurar saber o que estava acontecendo, mas eu não dava confiança. Meu pai tinha os mesmos sintomas e era diabético. Quando resolvi fazer o exame de sangue, minha glicose deu 219 mg/dL em jejum (o normal para um homem adulto é de 70 a 99 mg/dL). O médico falou que eu já era diabético”, contou.

Em Minas Gerais, em média, uma pessoa a cada nove segundos é internada por causa de complicações do diabetes, como infarto ou insuficiência renal. Em 2025, conforme a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), foram 3.533.705 admissões em unidades de saúde por problemas relacionados à doença.

Para o endocrinologista Paulo Miranda, da Rede Mater Dei, a dificuldade de identificar os sintomas é um dos principais desafios. “Na maioria das vezes, o diagnóstico é feito na ausência (não percepção) de sintomas, a partir da identificação da glicemia alterada. Em um estudo com pessoas que não tinham diagnóstico prévio, quase metade das pessoas com glicose alterada não sabia que tinha diabetes”, explicou.

Antônio Domingos tem diabetes e, em decorrência da doença, precisou amputar uma perna e perdeu a visão. (Flávio Tavares/O TEMPO)

Em Minas Gerais, em média, uma pessoa a cada nove segundos é internada por causa de complicações do diabetes, como infarto ou insuficiência renal. Em 2025, conforme a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), foram 3.533.705 admissões em unidades de saúde por problemas relacionados à doença.

Para o endocrinologista Paulo Miranda, da Rede Mater Dei, a dificuldade de identificar os sintomas é um dos principais desafios. “Na maioria das vezes, o diagnóstico é feito na ausência (não percepção) de sintomas, a partir da identificação da glicemia alterada. Em um estudo com pessoas que não tinham diagnóstico prévio, quase metade das pessoas com glicose alterada não sabia que tinha diabetes”, explicou.

É justamente aí que mora o perigo: não dói, não incomoda, não impede a rotina. Até que as consequências aparecem. Sobre as complicações do diabetes não tratado, Paulo Miranda destaca que elas podem ser severas. “O diabetes é a principal causa de cegueira adquirida na nossa população e também aumenta o risco de neuropatia diabética, infecções, dor nos pés e amputações. No mundo, uma amputação de membro inferior ocorre a cada 15 segundos por complicações do diabetes”, afirmou.

Antônio, que convive com a doença desde os 45 anos, explica que o agravamento muda tudo. Ele perdeu a visão e teve a perna amputada. Mas, segundo ele, a maior amputação foi emocional. “São doenças silenciosas, muitas vezes não sentimos nada. O meu trabalho não foi impactado inicialmente, mas tive um abalo emocional. Os pensamentos ruins entram na cabeça da gente e atrapalham”, disse.

O cenário ficou mais crítico porque, no começo, o aposentado conta que não levou o tratamento a sério. “Depois do diagnóstico, eu não segui o tratamento certinho. Continuei fazendo tudo errado, não cumpri as regras para manter o controle”, disse. “O diabetes parece que puxa a gente para o que não pode: dá vontade de comer doce, tomar café com açúcar, suco bem doce”, afirmou. “Se a gente sai do controle e continua fazendo errado, a doença vai ficando mais difícil de controlar. A minha perna foi amputada também por causa do cigarro. Ele agravou tudo”, completou.

Hoje, mesmo seguindo corretamente os medicamentos, ele enfrenta outra barreira: o acesso. Mora apenas com o pai, também idoso e diabético, e não consegue manter acompanhamento regular. “Não tenho acompanhamento médico porque dependo de alguém para me levar, por causa da visão. Então a gente deixa de fazer as coisas para não perturbar ninguém”, explicou.

“Se tivéssemos demorado mais algumas horas, poderíamos ter perdido nossa criança”

O diabetes atinge pessoas de todas as idades. Há quatro anos, o estudante Luiz Felipe de Almeida, de 12 anos, faz tratamento para a doença. Segundo a mãe do paciente, Lídia de Almeida, de 42 anos, os primeiros sinais foram confundidos com uma virose. “Ao chegar ao hospital, veio o susto: ele estava em estado gravíssimo, com hiperglicemia acima de 400. Foi encaminhado imediatamente para o CTI. Os médicos tinham dificuldade até para encontrar uma veia para o acesso, tamanha a gravidade do quadro. A única coisa que o médico nos pediu naquele momento foi oração, pois era um caso muito delicado”, detalhou.

O médico Paulo Miranda explica que não há só um tipo de diabetes. “O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune, diagnosticada geralmente na infância, que exige o uso imediato de insulina. Já o diabetes tipo 2 costuma ser diagnosticado de forma assintomática e está associado a outras condições, como obesidade e hipertensão”, explica.

O diagnóstico de Luiz foi um choque para a família. “Muitas pessoas acreditam que o diabetes surge por consumo excessivo de doces, mas esse não era o caso dele. Ele nunca foi de comer muito açúcar. Os exames mostraram que ele já havia nascido com a doença, e só fomos descobrir mais tarde. Para toda a família, foi um choque. Imaginar que, se tivéssemos demorado mais algumas horas, poderíamos ter perdido nossa criança, é algo impossível de descrever”, contou.

A mudança de rotina é permanente. “A rotina da casa muda completamente. A criança passa a ter horários rígidos para comer e uma alimentação específica para manter o controle da glicemia. Toda a família precisa se adaptar. Muitas vezes, é preciso aplicar insulina enquanto a criança dorme, seguindo rigorosamente os horários orientados pela médica. Após a aplicação, a criança precisa se alimentar em um intervalo específico”, disse Lídia.

Hipertensão e obesidade também levam uma “multidão” para o hospital

Em Belo Horizonte, as internações por obesidade aumentaram 138,8% em 2025: foram 9.231 casos, contra 3.864 em 2024. Já as internações por hipertensão cresceram 234% — 209.605 em 2025, frente a 62.619 no ano anterior. Doenças, muitas vezes, relacionadas ao diabetes.

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) defendem a criação de um imposto de 20% sobre bebidas açucaradas para frear o avanço da obesidade no Brasil. “Somente em 2019, estima-se que 57 mil mortes prematuras no Brasil foram atribuíveis ao consumo generalizado de alimentos ultraprocessados (AUP). O impacto econômico é severo: doenças e mortes associadas a esses produtos impõem um ônus anual de aproximadamente 1,24 bilhão de reais ao orçamento público, incluindo cerca de 970 milhões em custos diretos para o Sistema Único de Saúde (SUS)”, aponta o artigo.

Para Paulo Miranda, a taxação pode ajudar. “O consumo regular de alimentos ultraprocessados está associado a piores desfechos de saúde e, por isso, esses produtos deveriam ter maior taxação”, afirmou. Mas ele pondera que o enfrentamento precisa ser mais amplo. “Além das políticas fiscais, são fundamentais ações educativas, investimentos em merenda escolar, mobilidade urbana, segurança, transporte público, ciclovias e espaços públicos para a prática de atividade física”, comenta.

E reforça que alimentação saudável não precisa ser sinônimo de luxo. “Muitas vezes, a alimentação saudável é vista como algo inacessível ou caro, muito por causa de informações equivocadas divulgadas nas redes sociais. Uma alimentação saudável é simples, baseada em alimentos in natura de origem vegetal, encontrados em feiras e mercados, com preparo caseiro e redução do consumo de ultraprocessados”, explica.

Prevenção: o que pode ser evitado

“A prevenção passa pelo diagnóstico precoce e pelo tratamento adequado, que envolve hábitos saudáveis, alimentação equilibrada, atividade física, controle do sono e manejo do estresse”, ressalta Paulo Miranda.

O endocrinologista Rodrigo Lamounier também destaca a importância de mudanças simples. “É importante buscar uma alimentação saudável, com menor consumo de alimentos ultraprocessados e mais comida de verdade, sempre atento à qualidade e à quantidade do que se come. Além disso, manter o peso corporal e praticar atividade física de forma regular são cuidados essenciais”, explica.

Ele recomenda ainda o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde. “É um documento simples, acessível, bem ilustrado e com uma linguagem muito clara. Ele apresenta princípios básicos da alimentação saudável e é uma ótima referência para a população”, afirma.

Na prática, a falta de acompanhamento pode trazer consequências irreversíveis — físicas e emocionais. “A partir dos 40 anos, a pessoa precisa fazer um check-up completo. Se houver alguma alteração, é necessário tratar e não deixar para depois. O diabetes é uma doença silenciosa e, quando você percebe, ela já avançou”, alerta Antônio. “O que eu estou passando não é legal e não desejo isso para ninguém. As pessoas precisam ser alertadas. Saúde tem que ser prioridade”, conclui.

O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, pode ser acessado clicando aqui.

O Tempo

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