O Projeto de Lei 167/2025, de autoria de Jüber Madeira Gomes (PRD), que declara de utilidade pública a Associação das Mães de Autistas (Amaes), foi analisado nesta segunda-feira (17) pelos vereadores durante reunião das comissões permanentes da Câmara. A presidente da entidade, Débora Gomes, participou do encontro e apresentou informações sobre o funcionamento e as demandas da associação.
Após avaliação, o projeto seguiu para emissão de parecer das comissões antes de ser liberado para inclusão na pauta de uma reunião ordinária. Se avançar nas etapas internas, poderá ser colocado em votação.
Debora concedeu entrevista sobre o tema:
Durante conversa sobre a Educação Especial em Itabira, foi destacado que a prevalência do Transtorno do Espectro Autista (TEA) segue a média internacional: aproximadamente 1 a cada 36 alunos. Segundo a entrevistada, isso já se reflete diretamente nas salas de aula.
“Hoje, em praticamente todas as escolas, há pelo menos um estudante autista. Com turmas de cerca de 35 alunos, a estatística se confirma na prática”, explica.

Principais dificuldades enfrentadas
Questionada sobre os maiores desafios, ela afirma que o autismo, por si só, já possui grande complexidade.
“O espectro é amplo e muitas pessoas têm dificuldade de compreender isso. Temos desde o nível 1, que demanda um suporte leve e permite uma vida mais independente, até o nível 3, que é severo e exige apoio integral da família.”
Ela enfatiza que, enquanto o autismo severo costuma ser facilmente identificado, o autismo nível 1 ainda enfrenta grande resistência social.
“Muita gente não enxerga a deficiência no autista leve e até questiona o diagnóstico. Infelizmente, hoje vemos falas que banalizam o autismo, como se estivesse virando moda — e não é assim.”
A entrevistada também comentou sobre o periódico amplificado do autismo, conceito que descreve pessoas com características do espectro, mas que não se enquadram no diagnóstico de deficiência por não apresentarem prejuízo funcional significativo.
“Eu mesma recebi esse diagnóstico ampliado, mas não posso afirmar que sou autista. A deficiência é reconhecida quando há prejuízo real na vida da pessoa.”
Outro ponto citado é a confusão frequente entre TEA e TDAH, especialmente em crianças hiperativas.
“Muitas vezes há resistência por falta de conhecimento. E nem culpo as famílias — até nós, que convivemos diariamente com isso, enfrentamos dificuldades para entender certas situações.”
Para ela, conscientização e esclarecimento são fundamentais.
“É um processo que exige paciência, informação e muito diálogo.”
A criação da associação
Mãe de dois filhos autistas, ela relatou que a busca por informação sempre foi uma batalha constante. Foi dessa necessidade que surgiu a ideia de criar uma associação.
“A associação nasceu da falta de apoio e de conhecimento. Nós mães precisávamos de um espaço para trocar experiências, orientar outras famílias e lutar por políticas públicas. Desde então, o grupo vem ganhando força e visibilidade.”
Ela afirma que o trabalho é contínuo e envolve acolhimento, orientação e mobilização social.
“A associação existe justamente para que nenhuma família caminhe sozinha. Informação transforma — e é isso que buscamos oferecer.”
A origem da associação e a luta das mães atípicas
A entrevistada conta que sua trajetória nessa causa começou ainda quando seus filhos — hoje com 15 anos — receberam o diagnóstico de autismo aos 2 anos de idade.
“A ideia da associação nasceu no meu coração há muitos anos, logo após o diagnóstico. Sou de Itabira, mas na época morava em Passabém. Quando retornei para Itabira, em 2015, comecei essa luta de forma mais ativa”, relata.
Ao voltar para a cidade, ela buscou apoio na APAE.
“Meus filhos fizeram parte da primeira turma criada para a educação infantil voltada ao autismo na APAE. Ali começou nossa mobilização, nossas reivindicações.”
A força do coletivo e o crescimento do movimento
Segundo ela, ao chegar a Itabira encontrou um cenário que hoje se repete em muitas cidades brasileiras: as mães é que puxam a linha de frente.
“Naquele período, éramos todas mães lutando juntas. Criamos um grupo e, aos poucos, ele foi crescendo. Em 2023, já representávamos mais de 100 famílias.”
Essa rede de apoio se fortaleceu justamente porque a complexidade do TEA exige troca constante de experiências.
“É uma mãe ajudando a outra. No início, fui muito apoiada por mães de Belo Horizonte, e entendi que essa luta é assim: uma estende a mão hoje e, amanhã, essa mãe que chegou vai estender a mão para outra.”
Ela explica que os desafios vão desde conseguir encaminhamentos até encontrar médicos e terapeutas preparados — um cenário que ainda apresenta muitas lacunas.
“Na época em que meus filhos eram pequenos, eu ia para Belo Horizonte fazer cursos de capacitação sempre que podia. A gente precisa estudar muito. Há profissionais excelentes, mas também muitos que ainda não entendem o espectro.”
A falta de preparo, segundo ela, não está apenas entre famílias, mas também entre profissionais da saúde.
“No início do diagnóstico dos meus filhos, vários médicos me perguntavam como eu havia percebido o autismo, como era. Muitos tinham vergonha de admitir que não dominavam o tema. É tudo muito novo, complexo e exige dedicação real, não apenas leitura superficial.”
Diálogo com o Legislativo e avanços recentes
Ela destaca que a relação com a Câmara Municipal não começou agora.
“Desde 2015 estamos em diálogo com o Legislativo. Mas este ano tivemos a grata surpresa de encontrar uma gestão muito aberta ao tema.”
A primeira reunião do ano, realizada em fevereiro, já contou com a presença da associação e colocou o autismo na pauta do Legislativo.
“Isso representa abertura, escuta e possibilidade de construir políticas públicas de verdade.”
“Estamos juntando pedrinhas”: o desafio de legalizar a associação e ampliar o atendimento às famílias
A entrevistada explica que o processo de formalização da associação é fundamental para que o grupo consiga ajudar, de maneira mais estruturada, as famílias de crianças com autismo — especialmente as mais vulneráveis.
“Estamos juntando pedrinhas. Para ajudar de verdade, precisamos estar legalizados. Há muitas famílias carentes, e o tratamento do autismo é muito caro”, afirma.
Ela explica que mesmo quem possui plano de saúde enfrenta dificuldades.
“Hoje há uma limitação muito grande. Muitos profissionais estão deixando os convênios porque não recebem valores adequados. E quem sofre mais com isso é a família carente, que não tem como pagar atendimento particular.”
Esse cenário tem consequências diretas na evolução das crianças.
“Estamos vendo um número crescente de crianças piorando porque não têm diagnóstico precoce nem tratamento adequado. É doloroso para uma mãe ver o filho sofrendo sem poder ajudar.”
A importância da legalização para acessar recursos
Para que a associação consiga captar recursos e ampliar sua atuação, é preciso seguir várias etapas burocráticas.
“Tudo que queremos fazer depende de dinheiro. E para ter acesso a verbas públicas ou firmar parcerias, temos que cumprir cada etapa. Esta aqui é uma delas”, explica.
Segundo ela, três processos estão em andamento:
1. Legalização formal da associação.
2. Inscrição e reconhecimento junto à Comissão Municipal de Ação Social da Criança e do Adolescente.
3. Regularização documental junto ao Ministério Público, que permitirá firmar convênios.
“Depois disso, poderemos fazer parcerias com a Prefeitura, receber verbas e até firmar convênios com clínicas e profissionais para garantir atendimento às famílias.”
Falta de profissionais na rede públicaA entrevistada também destaca um problema estrutural enfrentado pelo município.
“Temos participado de várias reuniões com o secretariado e com o Ministério Público. Eles apresentam a mesma dificuldade: falta de profissionais. Muitos não querem trabalhar no sistema público.”
Ela explica que a questão é principalmente financeira.
“O serviço particular é mais vantajoso para os profissionais. No setor público, os valores são muito baixos. Por isso há essa escassez.”
Diante dessa realidade, a associação se posiciona como alternativa para viabilizar atendimentos:
“Através de convênios, podemos contratar profissionais pelo regime particular, via associação, para que as famílias que mais precisam consigam tratamento.”
Assim, o objetivo é aliviar tanto o município quanto as mães que enfrentam a rotina de busca por atendimento especializado.
“É uma forma de ajudar o município e, principalmente, de garantir que nenhuma criança fique sem o tratamento que necessita.”
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