Muitos transtornos de humor, como a depressão e a ansiedade, e doenças degenerativas como o Alzheimer, estão ligados a alterações na serotonina, um neurotransmissor que desempenha um papel fundamental na regulação do humor de outras funções cerebrais. Ao longo de décadas, a ciência tem explorado o uso de substâncias psicodélicas para o tratamento dessas condições por causa de sua influência na sinalização de serotonina no cérebro. No entanto, os efeitos alucinógenos frequentemente associados a esses compostos acabam limitando o uso medicinal.
Para superar esse desafio, uma equipe de cientistas desenvolveu versões modificadas da psilocina, composto psicoativo encontrado nos “cogumelos mágicos”, capazes de preservar as propriedades terapêuticas da substância e reduzir os efeitos alucinógenos causados por ela.
Publicado no “Journal of Medicinal Chemistry”, da American Chemical Society, o estudo apresentou cinco variantes químicas da psilocina, projetadas para liberar a molécula ativa no cérebro de uma forma mais lenta e constante, reduzindo potencialmente as reações adversas e preservando os benefícios.
Liderados por Sara de Martin, Andrea Mattarei e Paolo Manfredi, os pesquisadores inicialmente testaram as substâncias em amostras de plasma humano e condições que simulam a absorção gastrointestinal.
Os testes identificaram o composto 4e como o candidato mais promissor, já que ele demonstrou forte estabilidade durante a absorção. De acordo com o estudo, a substância produziu a liberação gradual de psilocina e continuou a ativar receptores-chave de serotonina em níveis similares à psilocina.

Em seguida, os pesquisadores conduziram testes comparativos entre o composto 4e e psilocibina de grau farmacêutico em camundongos. Nesta etapa, foram administradas doses equivalentes das substâncias por via oral nos animais. A equipe monitorou a quantidade de psilocina que atingiu a corrente sanguínea e o cérebro durante um período de 48 horas.
Em animais tratados com 4e, o composto atravessou a barreira hematoencefálica de forma eficiente. A substância produziu um nível mais baixo, porém mais duradouro, de psilocina no cérebro em comparação com a psilocibina.
Camundongos que receberam 4e apresentaram contrações de cabeça em quantidade significativamente menor do que camundongos tratados com psilocibina. Cientistas utilizam essas contrações de cabeça como um indicador confiável de atividade semelhante à psicodélica em roedores. Essa redução ocorreu mesmo com o 4e interagindo fortemente com receptores de serotonina.
O monitoramento ao longo de 48 horas mostrou que o 4e produziu níveis mais baixos, mas mais prolongados, de psilocina no cérebro comparado à psilocibina. Os pesquisadores acreditam que a diferença observada está principalmente relacionada à quantidade de psilocina liberada no cérebro e à velocidade com que essa liberação ocorre.
“Nossas descobertas são consistentes com uma perspectiva científica crescente sugerindo que efeitos psicodélicos e atividade serotoninérgica podem ser dissociados”, afirmou Andrea Mattarei, autor correspondente do estudo, em comunicado. “Isso abre a possibilidade de projetar novos terapêuticos que retêm atividade biológica benéfica enquanto reduzem respostas alucinógenas, potencialmente permitindo estratégias de tratamento mais seguras e práticas”.
Segundo os cientistas, será necessária mais pesquisa para compreender exatamente como essas moléculas funcionam. Eles também afirmaram que é preciso examinar o impacto biológico completo dessas substâncias antes de avaliar sua segurança e potencial terapêutico em pessoas.
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