Mais de 200 mulheres sofreram pelo menos uma tentativa de feminicídio em Minas Gerais no último ano, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Para as sobreviventes, as marcas da violência vão além das cicatrizes físicas e permanecem também no campo emocional.
A advogada Verônica Cristina Souza Suriani, de 43 anos, é uma dessas sobreviventes. Em 2021, ela foi atacada pelo ex-companheiro e sofreu 19 facadas. O crime aconteceu à plena luz do dia e na frente dos dois filhos da vítima. Cinco anos depois, Verônica conta como tem sido o processo de reconstrução após a tentativa de feminicídio.
“O caminho emocional é muito difícil, porque existe um trauma. Hoje eu trato estresse pós-traumático. Não só eu, mas meus filhos também, que presenciaram a agressão. Ele está preso pelo ato que cometeu contra mim, mas o trauma que causou aos meus filhos não tem pena para isso. Foi um dano irreparável”, relata.
Segundo ela, além da dor causada pela violência, muitas vítimas ainda enfrentam questionamentos que culpabilizam a mulher pelo crime. “Uma dor que a vítima de tentativa de feminicídio tem é o questionamento: ‘o que você fez para ele fazer isso com você?’ Nada. Eu só não quis namorar, só não quis”, afirma.
Muitas mulheres que sobrevivem a esse tipo de violência também não têm uma rede de apoio para reconstruir a vida longe do agressor. Entre os direitos garantidos por lei estão os abrigos para mulheres em situação de risco.

Rede de apoio é fundamental
A professora e pesquisadora Ludmila Ribeiro, da Rede Feminina de Estudos em Violência, Justiça e Prisões, explica a importância dessas estruturas.“A ideia é tirar essa mulher da situação de risco imediato, junto com os filhos, e levá-la para um abrigo, um lugar seguro e sigiloso. Mas isso é por um tempo. Depois, ela precisa conseguir andar com as próprias pernas. E aí surgem muitos desafios, porque muitas vezes essa mulher não tem rede familiar estruturada nem vínculos profissionais”, explica.
Segundo a pesquisadora, o apoio institucional é fundamental para que a vítima consiga recomeçar. Isso inclui garantir moradia, acesso a programas sociais e a continuidade da vida dos filhos.“É preciso fortalecer essa mulher. Muitas vezes é necessário matricular os filhos em novas escolas, conseguir um novo lugar para morar e garantir acesso aos programas da assistência social para que ela consiga sobreviver”, afirma.
Apesar das dificuldades, Ludmila destaca que muitas sobreviventes conseguem transformar a dor em força para ajudar outras mulheres.“Há mulheres que sobrevivem e se tornam grandes lideranças nas comunidades. Elas usam essa dor para ajudar outras vítimas a saírem do ciclo de violência. Essas mulheres têm muito mais chances de reconstruir a própria vida quando contam com rede de apoio”, diz.
Até 2023, Minas Gerais contava com apenas sete abrigos para mulheres vítimas de violência. Um deles é a Casa das Marias, que atende mulheres de Belo Horizonte e da Região Metropolitana, oferecendo acolhimento e apoio para vítimas.
A diretora de relações institucionais da instituição, Laura Costa, destaca que o número de espaços ainda é insuficiente.“Só cerca de 2% das cidades mineiras possuem abrigo para mulheres. Esse tipo de acolhimento é fundamental, mas ainda é muito limitado. Para funcionar de forma efetiva, precisamos de uma rede de atendimento integrada, envolvendo instituições públicas, forças policiais e a sociedade”, afirma.
Segundo ela, muitas vítimas desistem de denunciar por medo ou vergonha.“Por isso é tão importante que a sociedade compreenda como funciona o ciclo da violência contra a mulher. Assim, conseguimos ser ponte para que outras vítimas tenham coragem e sustentação psicológica para denunciar”, conclui.
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