Um esquema estruturado, que ia desde a fabricação até a comercialização online de tênis falsificados de grandes marcas internacionais, foi alvo da operação “Replicário”, da Polícia Civil de Minas Gerais. Na última semana, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em Ouro Branco e Itaverava, na região Central, e nos municípios de Nova Serrana, Perdigão e Pitangui, na região Centro-Oeste do Estado. Além da apreensão de 15 mil pares de calçados e de materiais que auxiliarão na investigação, também foi cumprido o bloqueio de R$ 10 milhões das contas dos investigados.
Nesta segunda-feira (6/4), o delegado Anderson Rezende Kopke deu detalhes da apuração durante coletiva de imprensa. Segundo o responsável pela investigação, os levantamentos do Departamento Estadual de Combate à Corrupção e a Fraudes duraram cerca de dois anos, após o recebimento de uma “notícia crime” enviada pela plataforma Mercado Livre, com apoio da Adidas, apontando vendas em larga escala.
O grupo utilizava sites próprios, perfis em redes sociais como o Instagram e grandes plataformas de e-commerce para escoar os produtos. “Cruzamos dados financeiros e identificamos uma estrutura criminosa com uma faixa especializada na produção desses calçados falsificados, no Centro-Oeste de Minas, e, em Ouro Branco, faziam essa comercialização online com os estoques em galpões”, explicou o delegado titular da 3ª Delegacia de Fraudes.
O esquema não lesionava apenas o consumidor — que muitas vezes comprava o produto acreditando ser original — mas também o fisco e a indústria. Marcas como Nike, Adidas, Asics, All Star, Vans, Lacoste e Mizuno estavam entre as replicadas. Estimativas da Associação pela Indústria e Comércio Esportivo (Apice) apontam que a falsificação gera um prejuízo anual de R$ 9 bilhões ao setor.
Para ocultar o rastro do dinheiro, a quadrilha utilizava empresas de fachada e “laranjas”. “É comum criar empresas em nome de pessoas que não têm vinculação direta com o fato. Quem está no CNPJ, às vezes, recebe algum valor apenas para a constituição dessas empresas”, afirmou Kopke. No total, 14 pessoas tiveram as contas bloqueadas.
Os investigados podem responder por organização criminosa; lavagem de dinheiro; crime contra as marcas; e crime contra as relações de consumo. Segundo a Polícia Civil, agora a investigação entra em uma nova fase, com a perícia dos aparelhos celulares e computadores apreendidos.

Líderes no luxo e trabalhadores na insalubridade
Enquanto os produtos falsos eram vendidos pela internet, os cabeças da organização desfrutavam de um padrão de vida incompatível com as atividades. Segundo as investigações, pelo menos três suspeitos foram identificados como os mentores do esquema. Durante o cumprimento dos 14 mandados de busca e apreensão, a polícia constatou o abismo entre a produção e o lucro dos investigados.
“A condição de vida é boa. As casas eram luxuosas, casas boas, e tem um cara construindo uma mansão. É uma condição de vida bem folgada, bem acima do padrão”, detalhou Kopke. Apesar da ostentação dos líderes, o cenário nas frentes de trabalho era oposto. Em Nova Serrana, os policiais encontraram uma fábrica em condições degradantes.
“O que chamou mais atenção foi a condição extremamente insalubre. Um local bem difícil de permanecer, com muito produto químico e um odor muito forte”, relatou o delegado. A Polícia Civil encaminhará os dados sobre as condições de trabalho aos órgãos competentes para apurar possível trabalho análogo à escravidão.
Além do bloqueio dos valores em conta, a polícia também planeja solicitar o sequestro de veículos de luxo e imóveis pertencentes aos membros do grupo para garantir o ressarcimento pelos danos causados.
O Tempo





